cover
Tocando Agora:

Sala de Bate-Papo

Bairro 'brasileiro' 'respira' na Copa após cerco de Trump

Kalani Mumbarak na garagem do Boi no Brasa durante preparativos para o jogo da Copa Reuters/Nichola P. Brown As bandeirinhas começam no topo das janelas e desc...

Bairro 'brasileiro' 'respira' na Copa após cerco de Trump
Bairro 'brasileiro' 'respira' na Copa após cerco de Trump (Foto: Reprodução)

Kalani Mumbarak na garagem do Boi no Brasa durante preparativos para o jogo da Copa Reuters/Nichola P. Brown As bandeirinhas começam no topo das janelas e descem até as calçadas. Verde e amarelo do Brasil. Vermelho e verde de Portugal. Amarelo do Equador. Nas vitrines dos restaurantes e das padarias da Ferry Street, artéria principal do bairro do Ironbound, em Newark, Nova Jersey, é difícil encontrar um estabelecimento sem ao menos uma bandeira. A música que sai das caixas de som na calçada muda de porta em porta — cumbia, funk, reggaeton — e as camisas que passam pela rua contam a história de um torneio disputado ao mesmo tempo em três países com 48 seleções. "Em todas as Copas que eu estou aqui, em todos esses 38 anos, essa superou todas", disse José Moreira, dono de cinco restaurantes na região, enquanto preparava o salão para receber o fluxo de torcedores que chegaria horas mais tarde. "Para o meu negócio, está maravilhoso." O Ironbound recebe imigrantes há quase dois séculos — portugueses, italianos, poloneses, brasileiros, cabo-verdianos, equatorianos. Cada geração chegou sem muito e foi refazendo o bairro à sua imagem. Hoje, dois em cada três moradores nasceram fora dos Estados Unidos. Desde 2025, o bairro carrega um título a mais: está oficialmente na lista do governo Trump como alvo prioritário de fiscalização de imigração. Manifestantes entram em confronto com agentes federais durante protesto em frente ao centro de detenção Delaney Hall, em Newark, em junho de 2025. Andres Kudacki/Getty Images Uma tradição que começou nos anos 1830 O nome vem das ferrovias que o cercaram no século 19 — ironbound significa, em inglês, "cercado de ferro". O bairro começou a receber imigrantes nos anos 1830, com a chegada dos alemães, seguidos de poloneses e italianos no final do século. Os portugueses chegaram a partir dos anos 1920, vindos inicialmente de New Bedford e Pawtucket, atraídos pelo trabalho nas fábricas químicas, cervejarias e curtumes. Em 1926, a Diocese de Newark já havia criado uma paróquia luso-espanhola no bairro para atender a crescente comunidade. Em janeiro de 1995, o New York Times publicou uma reportagem de página inteira sobre o Ironbound com um título que resumia aquele momento: "In Newark, Immigration Without Fear" — "Em Newark, imigração sem medo". O texto descrevia como as mesmas pessoas que décadas antes corriam pela Ferry Street quando uma van da imigração aparecia tinham se tornado proprietárias dos comércios ao longo da rua. "Se você entrar em cada negócio, um por um, quase todos começaram ilegalmente", disse ao jornal Jack Santos, dono de um restaurante no Ironbound, que havia chegado ao país sem documentação em 1966. Três décadas depois, o Ironbound mudou — mas o ciclo recomeçou. A partir dos anos 1980, à medida que a comunidade portuguesa envelheceu e parte dela se mudou para os subúrbios, uma nova onda de imigrantes chegou, atraída pela infraestrutura lusófona já estabelecida: igrejas, padarias, associações. Os brasileiros, impulsionados pela crise de hiperinflação no Brasil, vieram primeiro. Em seguida, cabo-verdianos e equatorianos, que hoje representam os grupos de crescimento mais rápido. Segundo dados do Censo americano de 2022, cerca de 15 mil pessoas de ascendência brasileira vivem em Essex County, o condado onde fica Newark — o dobro do registrado no Censo de 2000. No bairro do Ironbound especificamente, estimativas do setor imobiliário apontam que 26% dos moradores têm ascendência brasileira e quase metade da população fala português em casa. "Quando eu era menininho, com 5, 6 anos de idade, a comunidade aqui nem se preocupava com deportação", lembrou Kalani Mubarak, filho do fundador do restaurante Boi na Brasa, que opera no Ironbound desde 1995 e nasceu nessas ruas. "Era sempre uma cidade santuário para os imigrantes. Tu chegava aqui, de qualquer país que fosse, e sabia que seria acolhido. Daí veio o Trump com essas leis do ICE e começaram a invadir a nossa cidade." Matéria do NYT de 1995 intitulada 'Em Newark, imigração sem medo' The New York Times Archives De santuário a alvo Durante décadas, Newark funcionou como o que comunidades imigrantes nos Estados Unidos chamam de "cidade-santuário": um lugar onde as autoridades locais não cooperam ativamente com a fiscalização federal de imigração. Para quem chegava sem documentação, era uma promessa de relativa segurança. Em agosto de 2025, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos publicou uma lista de jurisdições-santuário que identificava como alvos prioritários de fiscalização. Newark estava na lista, ao lado de cidades como Chicago, Los Angeles e Nova York. No terreno, as consequências chegaram rápido. Em 23 de janeiro de 2025, três dias depois da posse do presidente Trump, agentes do ICE realizaram uma operação no Ocean Seafood Depot, um depósito de frutos do mar na rua Adams, dentro do Ironbound. Três funcionários foram levados sob custódia. Mapa do Brasil pintado em uma parede do Ironbound simboliza a presença da comunidade brasileira no bairro de Newark Giulia Granchi/BBC News Brasil O prefeito de Newark, Ras Baraka, emitiu um comunicado oficial condenando a ação: "Agentes do ICE invadiram um estabelecimento local em Newark, detendo residentes sem documentação, bem como cidadãos, sem apresentar um mandado. Newark não ficará de braços cruzados enquanto pessoas são ilegalmente aterrorizadas." Em novembro do mesmo ano, o mesmo depósito foi alvo de uma segunda operação, desta vez com mais de duas dúzias de agentes. Cerca de 20 pessoas foram interrogadas e detidas. O medo se instalou na comunidade de imediato e se traduziu em comportamento concreto. "Eles ficaram com medo de sair de casa para qualquer coisa e estavam ficando mais em casa, pedindo delivery, fazendo a própria comida", disse Mubarak. Kalani Mumbarak no restaurante Boi na Brasa, em Newark Arquivo pessoal O empresário José Moreira descreveu o mesmo fenômeno do ponto de vista de quem administra restaurantes. "Hoje, as pessoas estão buscando ficar mais em casa. Perdemos grandes clientes, grandes amigos, ex-funcionários e funcionários", afirmou. Segundo ele, as operações de imigração costumam acontecer em locais públicos, e não dentro dos estabelecimentos comerciais. "Eles esperam as pessoas na porta de casa, não vão aos negócios. Isso faz com que muita gente ainda se sinta mais segura para ir a um restaurante. Porque, imagina, se tivessem prendido alguém dentro de um restaurante, ninguém mais iria frequentar." José Moreira em um de seus restaurantes em Newark, o Taverna Casa Nova Giulia Granchi/BBC News Brasil A menos de dois quilômetros do restaurante Boi na Brasa fica o centro de detenção de Delaney Hall, com capacidade para mil pessoas, operado pela empresa privada GEO Group sob contrato com o ICE. O próprio prefeito de Newark, Ras Baraka, foi preso pelo ICE em frente ao centro em 9 de maio de 2025, ao tentar acompanhar uma visita de fiscalização do Congresso ao local. Baraka havia saído da área de acesso controlado e estava em espaço público quando agentes federais o cercaram, algemaram e levaram para dentro do centro. A acusação de invasão de propriedade foi depois retirada. Em maio de 2026, cerca de 300 detentos iniciaram uma greve de fome denunciando condições precárias, falta de assistência médica e alimentos estragados. Os protestos do lado de fora resultaram em confrontos com a polícia, toque de recolher e ao menos 50 prisões em uma única noite. O secretário de Segurança Interna negou que houvesse greve de fome. Para quem mora no Ironbound, a presença do centro de detenção a poucos quarteirões não é abstrata. "Eles já pegaram um cliente nosso na porta do restaurante, inclusive. Assistimos tudo." "É, muito triste, né? Muito triste. Muita gente do bem, trabalhador que não tem nem tempo de fazer nada de errado. Trabalha 7 dias por semana, 6 dias por semana só para pagar conta, mandar dinheiro para o seu país para tentar erguer a família, levar para outro patamar. A Copa como respiro A Copa do Mundo trouxe um clima mais festivo para comunidade. O Brasil jogou a fase de grupos inteira nos Estados Unidos — Nova York, Filadélfia e Miami. O estádio da final fica em East Rutherford, Nova Jersey, a menos de 30 quilômetros de Ironbound. Para a comunidade brasileira e latina do bairro, a Copa não é só um evento esportivo: é um motivo para sair de casa. "Parece que o pessoal está saindo sem medo, afinal não tem como viver lacrado dentro de casa, é impossível. E agora o movimento já aumentou bastante com essa questão da Copa do Mundo", disse Kalani. "Estou caminhando nessas ruas, nas avenidas principais aqui, qualquer dia da semana, todo mundo usando a camiseta do seu país, boné... Estão todos esparramados pela rua fazendo festa. Isso é muito bom." No Boi na Brasa, onde o salão tem capacidade para algumas dezenas de pessoas e uma garagem ao lado tem teloes para abrigar mais clientes, Kalani estima que por volta de 1,5 mil a 2 mil pessoas passam pelo restaurante a cada jogo do Brasil, entre os que assistem dentro e os que circulam pelo espaço. José Moreira diz que esta é a melhor Copa financeiramente que já viveu em quase quatro décadas nos Estados Unidos. A impressão de quem trabalha no Ironbound é que, durante a Copa, o ICE reduziu a pressão sobre a comunidade. Isso não é algo oficial ou anunciado — mas sentido. Os dados, no entanto, contam uma história diferente. Meta de detenções pelo ICE Em 1º de julho de 2026, o jornal New York Times revelou que agentes federais de imigração haviam detido mais de 10 mil pessoas em apenas cinco dias — um salto expressivo no ritmo de prisões. Segundo documentos internos obtidos pelo jornal, líderes do ICE foram orientados a colocar 80% de seus agentes em operações de detenção, priorizando as prisões. O número de detenções diárias praticamente dobrou em relação ao início do ano, chegando perto de 2,4 mil em um único dia. A população sob custódia da agência ultrapassou 63 mil pessoas. O aumento, porém, aconteceu sem alarde. Markwayne Mullin, o secretário de Segurança Interna, disse publicamente em entrevista à Newsmax que queria conduzir as operações de forma "mais silenciosa" — em parte para se distanciar das operações-espetáculo que marcaram a gestão de sua antecessora, Kristi Noem, e que terminaram com a morte de dois cidadãos americanos durante protestos em Minneapolis. O ICE não parou. Ficou mais discreto. E o Ironbound não ficou de fora. "Semana passada levaram uma pessoa que eu conhecia, um brasileiro que estava aqui há muito tempo", disse Mubarak. "Também tinha um ponto num parque cerca de 1 km daqui, onde ficavam aglomerados pessoas sem residência, e que também eram imigrantes. O ICE levou todos." A BBC News Brasil enviou perguntas ao ICE sobre estatísticas de detenções em Newark e sobre a existência de alguma diretriz específica para o período da Copa do Mundo. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta. A matéria do New York Times de janeiro de 1995 sobre o Ironbound descrevia um bairro que havia se transformado, décadas antes, com a chegada dos imigrantes portugueses que corriam da repressão da imigração. Agora, eles eram donos de negócios, residentes legais — e olhavam para os novos imigrantes com uma mistura de empatia e pragmatismo. Três décadas depois, o ciclo se repete. Os brasileiros e equatorianos que hoje servem as mesas, trabalham nas cozinhas e entregam mercadorias são os protagonistas de um capítulo parecido — diferente no idioma, nos países de origem e no contexto político, mas familiar na estrutura. José Moreira, que chegou aos Estados Unidos como jardineiro em 1987 sem nenhum comércio e hoje tem cinco, entende essa trajetória de dentro. "Aqui em Newark a gente tem um prefeito que ama o Brasil. Ele está sempre no meio da gente, está sempre falando com a gente. Quem você está em Newark, você está no Brasil. É um pedaço do Brasil", disse ele. Sua estimativa de que 30 mil brasileiros vivem em Newark é maior do que o Censo registra — uma diferença que, ele mesmo sabe, reflete a parcela da comunidade que vive fora dos registros oficiais. Quando a Copa do Mundo terminar, a rotina do Ironbound deve seguir com operações de imigração, e o centro de detenção Delaney Hall continuará operando a poucos quarteirões dali. Por enquanto, a comunidade tenta aproveitar o momento para celebrar as diferentes nacionalidades reunidas no bairro — e sonhar com títulos. "Estou confiante, muito confiante. O hexa vem esse ano", disse Kalani Mubarak.