Morre aos 87 anos mulher que foi despejada e virou símbolo da luta por moradia na Espanha
Maricarmen Abascal, idosa espanhola de 87 anos despejada do apartamento onde morava de aluguel, comparece a protesto popular em seu apoio em Madri, na Espanha, ...
Maricarmen Abascal, idosa espanhola de 87 anos despejada do apartamento onde morava de aluguel, comparece a protesto popular em seu apoio em Madri, na Espanha, em 28 de setembro de 2026. Reuters Maricarmen Abascal, a mulher que foi expulsa da prórpia casa se tornou símbolo da luta contra despejos na Espanha, morreu nesta quarta-feira (7), aos 87 anos. Ela estava internada no Hospital Gregorio Marañón, em Madri, onde estava internada desde que teve de deixar o apartamento, em 23 de setembro. A morte foi confirmada pelo Sindicato de Inquilinos da Espanha e pela família. A causa não foi informada. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Ela havia sido despejada de sua casa no bairro de Reitno, em Madri, em 23 de setembro. Ela morava no imóvel há 70 anos. O caso provocou uma onda de protestos em Madri. Manifestantes fizeram atos e acampamentos em praças para pedir uma solução para Maricarmen. No comunicado que noticiou a morte da idosa, a família lembrou uma frase que Maricarmen repetia aos manifestantes: “Lutem, continuem lutando pelo que é de vocês”. Crise da moradia A mobilização em favor da idosa ganhou força e chegou a outras cidades espanholas. Os protestos avançaram sobre a crise habitacional da Espanha, e já se estendem há semanas. A questão pressionou o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sanchéz, a propor um pacote de normas para impedir os despejos no país e o barrar o aumentos dos aluguéis. A proposta foi rejeitada pelo Congresso do país, o que fez as manifestações se intensificarem. Os protestos se espalharam e levaram milhões de espanhóis às ruas, até que Sanchéz optou por convocar eleições antecipadas no país. Com o aumento da violência dos atos no último final de semana, o premiê aprovou, nesta quarta, um pacote de 21 medidas - semelhantes às apresentadas ao Legislativo na semana passada - para estancar a crise da moradia. Aumento de aluguéis e despejos Maricarmen estava internada desde o dia que teve de deixar o apartamento. Seis anos antes, uma empresa havia comprado o apartamento onde ela vivia por um preço muito abaixo do valor de mercado. A razão era que Maricarmen ainda morava lá. Ela recebia uma aposentadoria de 1.400 euros e nunca deixou de pagar o aluguel. O contrato era antigo e o valor mensal, somado às contas, ficava em cerca de 500 euros. Em 2020, os proprietários disseram que ela precisava deixar o imóvel. Segundo eles, o contrato já havia sido transferido duas vezes, primeiro para a mãe de Maricarmen e depois para ela. Desde então, a idosa enfrentou quatro tentativas de despejo. Ela também recebeu propostas para aumentar o aluguel ou comprar o apartamento. Não pôde aceitar nenhuma delas. A nova proposta de aluguel era de 1.600 euros. A pressão dos manifestantes levou a uma situação inédita na Espanha. A empresa proprietária aceitou fazer um novo contrato de aluguel para que Maricarmen pudesse voltar ao apartamento. O acordo foi fechado enquanto ela estava internada. A solução veio tarde demais. Estado de saúde O despejo e os anos de disputa judicial afetaram a saúde da mulher. Maricarmen usava cadeira de rodas e precisava de ajuda para realizar tarefas do dia a dia, de acordo com o "El País". Foram quase sete anos de processos judiciais para tentar permanecer na casa onde viveu por décadas. Nos últimos meses, seu estado de saúde havia piorado. Ela perdeu massa muscular e passou a ter dificuldade para comer. Dois dias antes de deixar o apartamento, Maricarmen disse que até sua voz havia mudado. “Isso me afetou em tudo. Eu não sou mais eu”, afirmou. Símbolo da luta por moradia Mesmo internada, ela continuou incentivando os manifestantes. “Eu gostaria de estar aí com vocês, acompanhando o acampamento e a luta. Mas não tenho essa sorte. Por isso, peço coragem a todos. Lutem, defendam o que é de vocês e, por favor, tenham cuidado”, disse em um vídeo gravado no hospital. Milhares de pessoas protestaram em Madri e, depois, em outras cidades espanholas. Muitos manifestantes compartilhavam vídeos de Maricarmen nas redes sociais. A mulher que deu início à mobilização pedia que eles continuassem. E eles continuaram.