cover
Tocando Agora:

Sala de Bate-Papo

O passado português do estreito de Ormuz, no centro das atenções pela guerra no Irã

Ruínas do forte fundado por portugueses em Ormuz Fariborz/ Creative Commons/ Wikimedia Commons/ Via BBC Em crônica do século 16, o historiador português Jo...

O passado português do estreito de Ormuz, no centro das atenções pela guerra no Irã
O passado português do estreito de Ormuz, no centro das atenções pela guerra no Irã (Foto: Reprodução)

Ruínas do forte fundado por portugueses em Ormuz Fariborz/ Creative Commons/ Wikimedia Commons/ Via BBC Em crônica do século 16, o historiador português João de Barros (1496-1570) descreveu Ormuz como uma cidade situada "quase na garganta de estreito do mar da Pérsia". Ele notou que a ilha era "toda muito estéril e, em grande parte, uma mina de sal e enxofre, sem que naturalmente nela cresça um ramo ou uma erva verde". 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça "A cidade em si é muito magnífica em seus edifícios e próspera no comércio, pois é uma escala onde chegam todas as mercadorias orientais e ocidentais", observou Barros. "Dessa forma, embora a ilha não produza nada por si mesma, por meio do comércio possui todas as coisas estimadas do mundo." Barros escreveu ainda que, pela prosperidade local, os moradores costumavam dizer que "o mundo é um anel e Ormuz uma pedra preciosa engastada nele". Epicentro da geopolítica mundial nos últimos dias, por conta da guerra travada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, o estreito de Ormuz já foi parte do extenso portfólio das conquistas portuguesas de cinco séculos atrás — que incluíram o território que depois se tornaria o Brasil. Trump diz que EUA não precisam de ninguém para reabrir o Estreito de Ormuz Mas se ambos são episódios importantes do expansionismo imperial português no período que ficaria conhecido como o das Grandes Navegações, empreendimentos marítimos de conquista realizados por Portugal entre os século 15 e 16, em Ormuz a presença foi menos duradoura do que no continente americano. Ali o interesse era muito mais estratégico. Os portugueses estabeleceram uma fortaleza e usavam a cidade localizada na ilha de Gerum como ponto de parada para as embarcações a caminho das terras que faziam parte do império português no Oceano Índico. "Embora se tratasse de um território árido, circundado pelo deserto e sem fontes naturais de água potável, Gerum viu nascer nos seus terrenos uma cidade cosmopolita", diz à BBC News Brasil o historiador André Figueiredo Rodrigues, professor na Universidade Estadual Paulista (Unesp). "O motivo era claro: sua posição geográfica privilegiada, de enorme importância tanto estratégica quanto comercial." Predominava a chamada navegação de cabotagem, ou seja, com as embarcações não se distanciando muito da costa e com várias paradas previstas para o abastecimento das despensas com alimentos para a tripulação — e, eventualmente, estabelecimento de relações comerciais. "Ter entrepostos comerciais e controle de territórios nas rotas era fundamental naquele período. As embarcações podiam ir parando e se reequipando", afirma à BBC News Brasil o historiador Victor Missiato, pesquisador no Instituto Mackenzie. A principal marca dessa presença portuguesa em Ormuz são os restos do Forte de Nossa Senhora da Conceição, ali inaugurado em 1515. As ruínas são tombadas pelo órgão de proteção ao patrimônio histórico do Irã. "Ainda há vestígios ali. Inclusive com uma placa", comenta Missiato. "A arquitetura militar do período também é de influência portuguesa." LEIA MAIS: Diretor de Centro de Contraterrorismo dos EUA renuncia: 'Não posso apoiar a guerra em curso no Irã' Importância milenar De acordo com verbete escrito pelo historiador João Luís Ferreira na Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa (Séculos 15-18), há registros que apontam para a existência de Ormuz pelo menos desde o 2º século. "Já neste período a praça tinha uma grande relevância comercial", pontua ele, lembrando da posição geográfica privilegiada. Mas o assentamento ficava então às margens do rio Minab, no interior do império persa. No século 7, o território foi conquistado por muçulmanos. Quinhentos anos depois, contudo, a região acabaria sofrendo repetidos ataques do império mongol, então em franca expansão. Segundo Ferreira, tais incursões "destruíram a prosperidade" do entreposto e fizeram com que, em 1302, a população abandonasse a cidade original e se mudasse para a ilha de Gerum. Ilustração da fortaleza de Ormuz em livro do historiador português Gaspar Correia, obra publicada por volta de 1550 Domínio Público via BBC Na geopolítica da época, a decisão parece ter sido acertada. "A partir da nova posição, a cidade rapidamente firmou a sua predominância comercial e política no estreito, estendendo a sua influência a várias ilhas do Golfo Pérsico, das quais se destaca o Bahrein, e a alguns territórios e cidades costeiras, como Mascate e Soar", contextualiza o historiador. "Por Ormuz passaram a transitar não só a rota que ligava a Ásia à Europa, via Alepo, mas também um importante conjunto de rotas intra-asiáticas, conectando regiões tão distantes entre si como a Mesopotâmia, a Pérsia, o Bengala, a Índia ou a Insulíndia." Ormuz era considerada um pequeno reino. Interesse português O marco fundamental da presença portuguesa na Índia foi a expedição do navegador Vasco da Gama (1469-1524), que desembarcou em Calicute em maio de 1498. No trajeto, ele notou a importância da cidade localizada no estreito e fez a Coroa portuguesa ter conhecimento deste lugar. O professor Rodrigues lembra que, nesse momento, Ormuz "figurava entre os principais elos das redes de comércio do Oceano Índico, que ali se encontravam com as rotas marítimas vindas de diversas regiões com as grandes rotas de caravanas que seguiam para a Ásia Central e para o Mediterrâneo Oriental". O conquistador português Afonso de Albuquerque, em imagem de autor desconhecido Domínio Público via BBC "A cidade exercia domínio sobre extensos territórios costeiros do Golfo Pérsico, tanto do lado persa, atual Irã, quanto do lado árabe, hoje associado ao território de Omã", pontua. Também havia um domínio sobre ilhas da região, entre elas o Bahrein, então importante exportador de pérolas. Ormuz ainda controlava os portos costeiros. Além disso, lembra Rodrigues, entre "os diversos negócios praticados pelo rei de Ormuz", destacava-se o comércio de cavalos. "Era o mais lucrativo, sendo exportado para a Índia em troca de ouro", diz o historiador. Eram animais sobretudo utilizados para fins militares. Como não se adaptavam plenamente ao clima indiano, raramente se reproduziam por lá. Isso fazia com que houvesse uma demanda permanente por novos cavalos. Outros produtos eram exportados para a Índia, como prata, aljôfar, pérolas, salitre, enxofre, seda, pedra-ume, sal, almíscar, âmbar, frutas secas e cereais. "Também era local de comércio de tapeçarias", acrescenta Missiato. "Em troca, importavam arroz e diversos tipos de especiarias e produtos aromáticos muito apreciados e consumidos na Pérsia e na Arábia", contextualiza o historiador Rodrigues. O rei de Ormuz tinha um acordo com o xá que governava a Pérsia. Pagava a ele um tributo que funcionava, como explica o professor da Unesp, como "uma espécie de seguro comercial", garantindo "a proteção das caravanas que atravessavam o território persa e sustentavam o intenso fluxo de mercadorias". Para os portugueses, controlar Ormuz era mais do que controlar um entreposto importante. Era ter o domínio sobre uma estrutura comercial já consolidada, portanto. "Significava ter acesso privilegiado a uma das mais ricas e dinâmicas redes comerciais do mundo naquele período", ressalta Rodrigues. Sob o domínio lusitano Em 1505, o então rei Manuel 1º (1469-1521) determinou que tentativas diplomáticas fossem empreendidas para tentar submeter o então reino de Ormuz ao jugo lusitano. Fundamentavam a sanha dominadora portuguesa não somente o plano de controlar completamente o comércio entre Europa e Oriente como também o interesse católico de minar o poder econômico dos povos islâmicos. Coube ao militar português Afonso de Albuquerque (c.1452-1515) a missão da conquista. Em 1507, sua armada "tomou e destruiu várias praças sob o controle ormuziano" na costa, relata o historiador Ferreira, e quando chegou à ilha de Gerum, não teve dificuldades para subjugar "rapidamente" a cidade. "Albuquerque era um dos nomes mais importantes na gestão da navegação para Portugal no início ,do século 16", situa Missiato. A frota do conquistador contava com 400 homens. "A expedição fazia parte da estratégia portuguesa de controlar pontos estratégicos das rotas comerciais do Oceano Índico", explica Rodrigues. Ferreira afirma que ficou "então estabelecido entre Albuquerque e o rei local um acordo de paz que previa a construção de uma fortaleza lusa dentro dos limites da cidade". Fortaleza de Ormuz em mapa português do século 17, de autoria desconhecida Domínio Público via BBC Contudo, ao que parece, o pacto foi mal desenhado. Se os portugueses entendiam que haviam oficializado o rei de Ormuz, mantido no trono, como um subordinado ao monarca português, os ormuzianos interpretaram o acordo apenas como um contrato de livre trânsito comercial, sem ônus para o poder político. A construção do forte foi iniciada mas uma série de desentendimentos entre os trabalhadores portugueses e os locais acabou forçando a saída de Albuquerque e suas tropas dali. Este foi para a Índia e estabeleceu lá a principal sede as possessões lusitanas no Oriente. O conquistador português retornou a Ormuz em 1515, quando havia um contexto mais favorável para o domínio português, já que a sociedade ormuziana vivia conflitos internos. A esta altura, Albuquerque já era o todo-poderoso governador do Estado Português na Índia. "A cidade foi submetida com facilidade", destaca Ferreira. "A conquista [portuguesa] se insere no contexto de efetivar a posse das terras em meio a uma disputa entre as autoridades locais", comenta à BBC News Brasil Demétrius Cesário Pereira, professor de Relações Internacionais na Escola Superior de Propaganda e Marketing. "(A ideia era) a ilha de Ormuz se tornar um Estado vassalo sob a 'proteção' da Coroa portuguesa, como ocorria em parte do mundo nessa época." Segundo Pereira, o conquistador Albuquerque se aproveitou da cisão que havia na sociedade de Ormuz e, ao fazer de uma das partes um grupo aliado, conseguiu exercer o domínio. "Ao comandar a região no século 16, Portugal passou a controlar o fluxo comercial entre o Oceano Índico e o Mar Mediterrâneo, além de exigir o pagamento de tributos aos comerciantes que cruzavam a região, o que também lhe garantia o monopólio das rotas das especiarias", frisa Rodrigues. A fortaleza de Nossa Senhora teve sua construção retomada e foi finalmente concluída. Albuquerque estabeleceu a suserania de Ormuz ao reino de Portugal, tornando aquelas terras subordinadas ao então Estado da Índia, governador por ele. De acordo com Rodrigues, o período português foi de prosperidade para o entreposto, já que a cidade estava no caminho do império marítimo de Portugal e funcionava "como um elo entre as rotas do Oriente e os mercados do Ocidente". "Essa posição estratégica, no entanto, também a tornou alvo de disputas. A região enfrentou ataques e pressões de diferentes potências, especialmente do Império Otomano", descreve o historiador da Unesp. O controle português do estreito duraria somente até o século seguinte. No período conhecido como União Ibérica — em que as coroas portuguesa e espanhola foram unidas, de 1580 a 1640 —, a possessão passou a ser alvo de ataques persas, com apoio de embarcações inglesas. Em 1622, uma flotilha com mais de 3 mil homens se aproximou à fortaleza e estabeleceu um cerco. Os persas chegaram a oferecer aos portugueses o controle da cidade mediante uma boa indenização monetária. Estes não aceitaram. "Após meses de combates e bloqueio, entre fevereiro e 3 de maio daquele ano, as forças portuguesas acabaram se rendendo e foram expulsas de Ormuz, encerrando a presença portuguesa no Golfo Pérsico", afirma Rodrigues.